Quando ter certeza não é bom
- Thaís Monteiro Salán

- 17 de mar. de 2017
- 3 min de leitura

O treino para uma maratona envolve uma estratégia na qual o treinador aumenta a capacidade do atleta de sustentar progressivamente cada vez maior esforço, melhorando o desempenho. Se colocarmos esse desempenho em um gráfico, seria uma parábola cujo ponto mais alto (ápice do preparo) deve coincidir com o momento da prova. Pense numa bola, quando a lançamos, ela sobe e depois desce, é uma lei da física. O nosso desempenho não é diferente, ele sobe e depois desce, e depois sobe… e assim segue.
Desde dezembro, quando iniciei os treinos, meu treinador me conduziu na maioria das vezes tendo que me frear para "não subir rápido demais". Ele dizia “ calma Thaís, temos tempo, quero que você atinja seu ápice na prova, não antes”. Quando eu terminava uma corrida em que tinha ido rápido, ficava toda orgulhosa... mas logo vinha a bronca dele: foi rápido demais. Eu tinha que seguir o planejado para “atingir o ápice no dia da prova” (isso até virou um mantra, rs). Assim eu vinha, longão após longão, atingindo as metas e, de acordo com o gráfico, mantendo a parabola na ascendente, até que…
Na semana passada “deu ruim”. A proposta era completar 36km em uma determinada velocidade. Eu estava muito confiante (para não dizer convencida, rs). A CERTEZA de que daria conta, de que marcaria um gol me fez desfocar, subestimei a distância e consequentemente não completei o desafio. Quilômetro após quilômetro fui percebendo que não dava para sustentar os 36km na velocidade planejada. Foi suado, sofrido, não me adequei às condições e no fim de 31,7km eu já não conseguia correr nem mais 10 metros (o que diria 10, 495km para completar a distância de uma maratona - PÂNICO!!!!).
Conversando com o Messias logo após o treino, eu pedi para repetir a distância no longão da semanta seguinte (quando já era para reduzir a distância). Minha sensação é que se daquele momento eu fosse para a prova, eu não estaria na ascendente, não conseguir os 36km, na minha cabeça, significava que eu já tinha começado a cair (lembra da bola?).
Nessa última semana toda eu vinha diferente, com medo de não conseguir de novo, pois nesse caso estaria determinado que a bola estava mesmo caindo. Se assim fosse, PÂNICO X 10000!!! Por isso fiz uma análise do que podia ter dado errado na última vez. Essas foram minhas conclusões: 1) Fui correr com outras pessoas (estou acostumada a ir sozinha- que anti-social né?! rs); 2) O lugar era diferente, onde nunca tinha corrido antes; 3) Estava mais quente que o habitual; 4) O lugar estava L-O-T-A-D-O (de pessoas, bicicletas, carros e ônibus). Vamos combinar, não dá para mudra tanta coisa e ainda fazer 36km. Mas como tinha CERTEZA de que conseguiria, subestimei todos os fatores.
Bom, com tudo isso analisado , decidi correr onde estava acostumada, pedi para adiantar os treinos e fazer o longão na sexta (não no sábado como de costume) pois o lugar estaria mais vazio. Além disso, comecei o treino às 05:40h, para corer com a temperatura mais amena. Todos os fatores controláveis estavam controlados... bem, a verdade é que não dá para controlar tudo! Talvez por isso a CERTEZA em alguns momentos possa mais atrapalhar do que ajudar. Eu tinha CERTEZA de que completaria o treino na semana passada, mas quando comecei a ver que talvez não fosse fazer exatamente do jeito que eu tinha pensado, eu desestabilizei e quebrei. Por isso dessa vez eu comecei mais humilde e aceitando as INCERTEZAS (ah, e morrendo de medo de não conseguir de novo).
Para concluir a história, SIM, eu consegui e NÃO, a bola não está caindo. Se tudo der certo (SE - incerteza), chegarei lá no ápice do meu gráfico. Hoje penso que admitir a dúvida te faz encarar melhor as adversidades e com isso ser mais flexível, afinal não era certeza que as coisas aconteceriam do jeito que eu planejei. Se der deu, se não der, faça o que você consegue, entende? E não é só à corrida que essa idéia se aplica.
Bom, a Maratona de Santiago está chegando, e como diz o Messias "faremos a leitura do que dá para fazer no dia", sem CERTEZAS, mas com muita GARRA.
Agora posso descansar as pernas com a cabeça em ordem.



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